Bathory: a condessa e um mito fascinante e cruel

O quanto das lendas construídas por séculos decorrem de eventos reais, tendo sido fantasiados ao longo do tempo e na pena de diversos autores, é algo objeto de pesquisa de muitos estudiosos. Especialmente, historiadores se debruçam sobre as histórias dos irmãos Grimm, que inventaram muitos contos que misturavam elementos de fábula, fantasia e terror para criar histórias que despertassem sensação de medo nos adultos.

Ao fim, porém, o aspecto criativo e fantasioso acabou por transformar suas histórias em histórias para crianças, especialmente por causa dos trabalhos da Disney. Cinderella, A Bela Adormecida, Branca de Neve, todas passaram pelas tintas dos Grimm e da Disney. Estas duas últimas, porém, tinham marcadamente uma figura em comum: a bruxa má, que quer o lugar da jovem. Esse tema, historiadores apontam, vem de uma história real, ou supostamente real: o condado de Cachtice, onde viveu Erzebeth Bathory entre 1560 e 1614.

Adaptações artísticas chegaram a filme (sem spoilers)

Histórias foram contadas, desde os Grimm até as bandas de heavy metal Venon e a própria Bathory, intitulada em homenagem à condessa, narrando sua estranha trajetória. A de uma condessa que assassinava meninas jovens e virgens para beber e banhar-se no seu sangue, acreditando que aquilo lhe traria eterna juventude. Tanto que, em ambas histórias de Grimm, as bruxas más desejam a beleza e juventude das princesas.

Em “Bathory” (2008), produçao multinacional entre Reino Unido, Hungria, Tchéquia e Eslováquia, dirigida por Juraj Jakubisko, tenta-se contar o mais historiograficamente a história da condessa, quase um equivalente ao Drácula em terras da Hungria. Entre intrigas políticas, desencontros amorosos e um cenário de uma Hungria ainda medieval, lidando com os progressos da Europa Ocidental que já avançava pelo renascimento, mercantilismo e colonialismo, retrata as dificuldades de uma mulher sozinha em lidar com um condado a governar.

Morte do marido e decadência (com spoilers)

O filme retrata um primeiro terço em que ela se apaixona por um marido prometido, que tem sua devoção aos modos da idade média, apesar de ser um homem violento, marcado pela guerra. Erzebeth tem por amante um pintor renascentista e por hobbies o dessecamento de corpos animais e o estudo de ervas medicinais para ministrar remédios a doentes, nos porões de seu castelo. Isso, é claro, atrai maus olhos da sociedade, num medievo ainda acostumado a não violar corpos ou tocar sangue com o pretexto dos estudos.

Depois, passa à segunda parte. Quando morre o marido, que, mais que seu amor, era sua segurança, a condessa herda a regência do condado, uma vez que já tem filho homem com o antigo conde. Contudo, Thurzo, outro nobre húngaro com aspirações a governar Cachtice, e, sendo a governante atual uma mulher, ganha margem de manobra para explorar o imaginário das bruxas a partir do gosto de Erzebeth pela medicina e por mexer em corpos animais e secreções humanas.

Um assassinato cometido pela Condessa Bathory, quando ela já desenvolve paranoia pelas ações estranhas de Thurzo, serve como fio do novelo a ser seguido pela inquisição protestante. Contra isso, bem ao “Nome da Rosa” (1980) de Umberto Eco, dois sacerdotes franciscanos são enviados a Cachtice para compreender o que estaria acontecendo para incriminar tão gravemente a condessa. Esse cenário é interessante para descrever as distensões de uma Europa Central descatolicizada, em que o trono de uma condessa católica é almejado por um nobre protestante, o que está perifericamente retratado na dicotomia entre a inquisição protestante e os padres católicos.

Eles sequer chegam a conhecê-la, mas testemunham sua história de decadência acelerada no terço final, a partir de um assassinato que, ainda que moralmente condenável aos olhos de hoje, para a época não serviriam ao propósito de transformá-la na “condessa de sangue” e criar toda uma história macabra ao seu entorno.

Na verdade, o que se descobre é uma condessa solitária pela viuvez, perseguida pelo parente distante que quer seu trono, apaixonada por medicina e que, como fator definitivamente comprometedor: tomava banho. O fato de todos os dias ela aquecer água, encher a banheira com flores e produtos aromatizantes (majoritariamente de cor rosa ou avermelhada) e imergir dentro dela, testemunhado por criadas também assustadas, tornou-se prova de que ela se banhava no sangue das virgens que matava no seu porão.

Duvido de que ela quisesse ser ícone

Erzebeth Bathory foi condenada por um assassinato, que foi ligado ao seus hábitos de estudar corpos animais e usar conhecimentos em medicina herbária, conectando isso ao desaparecimento de jovens daqui e dali por razões várias, mas consequentes de doenças, quedas, ataques de animais, ou mesmo estupros ou violência doméstica etc. Todo corpo que sumia, num intervalo de uma década, nada tinha a ver com Bathory, mas reforçava o mito da condessa que retinha seus corpos para retirar dele seu sangue. Isso, somado ao passado local recente na vizinha Transilvânia do Conde Vlad III, o empalador, este um cruel torturador de pessoas tomadas como espólios de guerra contra os muçulmanos, alimentava o mito. Vlad se tornou o Drácula, Erzebeth a bruxa má. 

Um ótimo filme, apesar de seu ar underground, sobre a transição do medievo para a modernidade europeia, sobre conflitos entre protestantes e católicos, sobre misoginia, e sobre como um mito pode surgir de uma pessoa que jamais quis estar na história. Tão somente a gestora do pequeno condado de Cachtice em nome de seu filho, terminou por inspirar histórias que vão desde contos para crianças até músicas de terror em bandas de heavy metal.

Por fim, vale a nota: não confundir Bathory, que era a família nobre, com Cachtice, que era o condado. Apesar de o nome Condessa de Bathory erroneamente atribuir a Bathory o nome do condado, não o era. Tanto que a banda Venon, que fez a música mais famosa, tem em seu refrão a forma correta: “Countess Bathory”, ou seja, a “condessa Bathory”, decorrente do nome completo Condessa Erzebeth Bathory de Cachtice.

Welcoming the virgins fair, to live a noble life
In the castle known to all - the count's internal wife
She invites the peasants with endless lavish foods
But, when evening spreads it wings, she rapes them of their blood
Countess Bathory
Countess Bathory

All day long the virgins sit and feast on endless meals
The countess laughs and sips her wine - her skin doth crack and peel
But when nighttime fills the air one must pay the price
The countess takes her midnight bath with blood that once gave life
Countess Bathory
Countess Bathory

Living in her self styled Hell, the countess dressed in black
Life's so distant - death's so near - no blood to fury time back
The castle walls are closing in, she's crippled now with age
Welcomes death with open arms - the reaper turns the page
Countess Bathory
Countess Bathory



Siga


Categoria