Agente Secreto: mistério, Recife e perseguição invisível
O Agente Secreto é um grande filme. Mais do que isso: é um filme espetacular, possivelmente o melhor trabalho de Kleber Mendonça Filho até aqui, e muito provavelmente o maior papel já interpretado por Wagner Moura. E isso não é pouco dizer. Moura já foi Capitão Nascimento, já foi Pablo Escobar, já encarnou figuras intensas, explosivas, carismáticas. Marcelo, porém, é diferente. Ele não se impõe pelo excesso, mas pelo silêncio, pelo olhar, pela sensação constante de que há algo errado — e perigoso — à sua volta.
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Desde a primeira sequência, ambientada dentro de um Fusca, o filme estabelece seu clima. Marcelo é parado por policiais que parecem saídos diretamente da iconografia mais suja da ditadura: grosseiros, violentos, indiferentes à vida humana. Há corpos desovados, há naturalização da morte, há o cotidiano do horror. Essa cena inicial é fundamental porque ela não explica nada — apenas insinua. Quem é Marcelo? Por que ele desperta atenção? O filme não responde de imediato. Ele prefere caminhar junto com o espectador na descoberta.
Aos poucos, entendemos que Marcelo não é apenas mais um perseguido político do regime militar. Ele é alguém visado por uma camada mais profunda e menos discutida da ditadura: a plutocracia que se beneficiou dela. Empresários, interesses econômicos, elites que operavam nos bastidores e que, quando necessário, utilizavam os mecanismos do Estado para eliminar obstáculos. É aí que entram os chamados esquadrões da morte — não como instrumento oficial do regime, mas como sua máscara tardia, especialmente após o período de Ernesto Geisel, quando a repressão direta começa a ser substituída por formas mais “terceirizadas” de violência.
Essa revelação não vem em discurso, vem em atmosfera. O Agente Secreto é um filme de camadas: quanto mais ele avança, mais entendemos que a perseguição a Marcelo não é ideológica apenas, mas econômica, estrutural. E tudo isso se desenrola junto à própria história de Recife. Como em outros filmes de Kleber Mendonça Filho, a cidade não é cenário, é personagem. Pernambuco, Recife, suas ruas, seus prédios, sua memória — tudo é filmado como espaço de resistência e de lembrança. O filme fala de um homem sendo caçado, mas fala também de um lugar marcado por violências que não desapareceram, apenas mudaram de forma.
Consciência, repetição e o custo da monocultura

É impossível não reconhecer a importância de O Agente Secreto. Filmes sobre o regime militar são necessários. São pedagógicos, são incômodos, são formas de memória. Nos últimos anos tivemos Ainda Estou Aqui, antes dele Batismo de Sangue, Zuzu Angel, O Que É Isso, Companheiro?, além de diversas cinebiografias musicais e filmes como Lula, o Filho do Brasil, que atravessam esse período. A ditadura foi horrível, e é bom que o cinema brasileiro continue mostrando isso.
Mas há um problema quando esse tema se torna quase obrigatório. Segundo o crítico Jurandir Gouveia, há algo como sessenta filmes brasileiros sobre a ditadura para cerca de dez sobre a escravidão. A desproporção é evidente. O Brasil tem outras feridas, outros épicos, outras histórias. A própria participação do Exército Brasileiro na Segunda Guerra Mundial, por exemplo, rendeu apenas Estrada 47. Quando o país se apresenta internacionalmente, especialmente em festivais e no Oscar de Melhor Filme Internacional, cria-se uma espécie de monocultura temática: ditadura, miséria, violência estrutural.
Não é coincidência que quase todas as indicações brasileiras ao Oscar, com exceção de O Quatrilho e O Pagador de Promessas, estejam ligadas a esse eixo político. O prêmio é profundamente político, e o cinema brasileiro parece ter entendido isso como regra tácita. Isso não invalida O Agente Secreto, mas contextualiza seu lugar.

Há também uma crítica recorrente ao cinema de Kleber Mendonça Filho que aqui se repete: o paulista como vilão. Não apenas antagonista, mas quase caricatura. O Sudeste surge frequentemente como força opressora do Nordeste, chegando ao paroxismo em Bacurau, onde vira promotor de safári humano. É uma simplificação que incomoda, embora não destrua o filme. Mesmo para quem não é paulista — e aqui fala um mineiro —, a sensação é de que o conflito regional poderia ser tratado com mais complexidade.
Vale a pena?

Nada disso, porém, diminui o impacto de O Agente Secreto. O filme vale muito a pena. Vale pela qualidade cinematográfica, pela forma como revela uma face menos discutida da ditadura, pelo trabalho monumental de Wagner Moura como Marcelo e pela maneira como o mistério se sustenta até o fim. Vale também pela recorrência simbólica dos corpos desovados, que conectam início e desfecho, mostrando que a violência não é exceção, mas método. É um grande filme — mesmo carregando as contradições de um cinema brasileiro que, talvez, precise urgentemente aprender a contar mais histórias sobre si mesmo.